
PROTEÇÃO AOS DIREITOS
DA POPULAÇÃO LGBTQIAPN+
Bom crioulo, Adolfo Caminha (1895)
Considerado por muitos o primeiro romance gay da literatura brasileira, o livro narra a história de Amaro, um escravo foragido que, ingressando na Marinha, vê realizar-se seu sonho de liberdade. Graças ao biótipo sólido e sua quase inesgotável força física, torna-se um marujo voluntarioso e benevolente, recebendo o apelido de “Bom Crioulo”. É nessa nova etapa da vida que conhece Aleixo. Surge então uma história de desejo, frustração e tragédia. A publicação causou polêmica ao mostrar seus protagonistas — um negro e um branco — em uma relação homossexual.
Fonte
A volúpia do pecado, Cassandra Rios (1948)
A Volúpia do Pecado é o primeiro romance de Cassandra Rios e é considerado um marco na literatura brasileira por ser pioneiro ao abordar o romance lésbico de forma explícita.
A trama central gira em torno de duas adolescentes que se encantam uma pela outra e desenvolvem um romance às escondidas. Em uma época em que a sociedade brasileira via as relações homoafetivas como "pecado" e um desvio moral, o livro descreve a paixão e os desafios enfrentados por essas personagens.
Adriane Piovezan, professora, mestre em Estudos Literários e doutora em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), reafirma o pioneirismo de estreia. “A Volúpia do Pecado inaugura a literatura homoerótica feminina no Brasil. É um marco porque as personagens precisam até de um dicionário para entender o significado de quem são, lesbianas”.
Fonte
Eudemônia, Cassandra Rios (1949)
Conta a história da milionária Eudemônia Forbes, que tenta matar a companheira Mila após surpreendê-la com um homem no quarto de sua mansão. Como punição, ficará internada num hospital psiquiátrico por um ano, onde conhecerá a Dra. Méltsia, com quem viverá um romance. Sua excelente condição financeira lhe permite ter um atendimento privilegiado num hospital que usava métodos mais avançados para a época. O livro “Eudemônia” começou a ser censurado no início da década de 1950, e sofreu 16 processos. Na reabertura da Ditadura Civil-Militar brasileira (1964-1985), foi o único livro de Cassandra Rios que não recebeu anistia.
Fonte
Grande sertão: veredas, João Guimarães Rosa (1956)
Nesta obra de Guimarães Rosa, o sertão é visto e vivido de uma maneira subjetiva e profunda, e não apenas como uma paisagem a ser descrita, ou como uma série de costumes que parecem pitorescos. Sua visão resulta de um processo de integração total entre o autor e a temática, e dessa integração a linguagem é o reflexo principal. Para contar o sertão, Guimarães Rosa utiliza-se do idioma do próprio sertão, falado por Riobaldo em sua extensa e perturbadora narrativa.
Encontramos em ´Grande Sertão-Veredas´ dimensões universais da condição humana - o amor, a morte, o sofrimento, o ódio, a alegria - retratadas através das lembranças do jagunço em suas aventuras no sertão mítico, e de seu amor impossível por Diadorim.
Fonte
O vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan (1965)
Assim como um vampiro é capaz de tudo em sua busca pela satisfação do sangue, os personagens dos contos que compõem este O vampiro de Curitiba buscam, sem culpa, pudor ou censura, o prazer a qualquer custo. Considerado uma obra-prima do autor, este livro traz Dalton Trevisan em sua forma mais clássica: objetivo, conciso, minimalista e afeito a referências literárias de toda sorte, levando sua mistura de ironia e pessimismo aos extremos mais chocantes e repulsivos da degradação humana. Estas histórias representam situações-limite sociais, psicológicas ou existenciais que, por seu absurdo, contêm elementos de paródia, humor e fantasia, ao mesmo tempo em que exploram a crueldade e a sordidez reveladas nas incontroláveis fantasias que determinam os impulsos mais profundos do ser humano.
Fonte
Limite Branco, Caio Fernando Abreu (1971)
Escrito quando Caio Fernando Abreu tinha apenas dezenove anos e publicado pouco tempo depois, em 1971, Limite branco inaugura a trajetória de uma das vozes mais apaixonantes da nossa literatura. Ao longo da trama, acompanhamos as descobertas, os anseios e os temores de Maurício num período intenso e angustiante, quando a infância fica para trás e o caminho que leva à vida adulta não passa de uma incógnita.
Fonte
Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu (1982)
Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época. A prosa visceral dos dezoito contos de Morangos mofados — potencializada pela hesitação coletiva de um país que vislumbrava a redemocratização ante a falência incipiente do regime militar — traduziu as inconstâncias humanas mais profundas e continua, ainda hoje, arrebatando leitores de todas as gerações. Para José Castello, que assina o posfácio desta edição, embora seja um livro de narrativas curtas, "a obra mantém uma férrea unidade, em torno da coragem de se despir, da fidelidade aos sentimentos mais íntimos e mesmo os mais terríveis, e ainda à dificuldade de ser".
Fonte
Em nome do desejo, João Silvério Trevisan (1983)
Para contar a história de amor e ódio entre os seminaristas Abel e Tiquinho – jovens divididos entre a mortificação da carne e a exaltação da alma, presos entre as glórias do divino e a ebulição da adolescência –, Trevisan contrapõe a beleza sensual à rigidez católica. Com um enredo envolvente, o autor guia o leitor entre labirintos de desejo proibido e mortificação.
Fonte
Stella Manhattan, Silviano Santiago (1985)
Stella Manhattan pertence à categoria das criações artísticas à frente de seu tempo. Passados mais de trinta anos de sua primeira publicação, o romance não apenas se firmou como um clássico moderno, leitura incontornável para todos aqueles que apreciam a alta literatura nacional. Revela-se pioneiro na ficcionalização do então emergente e politizado universo trans.
Eduardo da Costa e Silva — identidade oficial de Stella Manhattan — é um funcionário do Consulado brasileiro nos Estados Unidos. Protegido do coronel Valdevinos Vianna, também conhecido como Viúva Negra, Eduardo protagoniza na Nova York dos anos 1970 uma história de escândalo sexual e intrigas políticas da qual também fazem parte personagens ricos e diversificados como Aníbal, um intelectual paraplégico e voyeur, sua libidinosa mulher Leila, e Paco, ou La Cucaracha, um cubano anticastrista.
Fonte
Certos movimentos de um coração, Ruddy Pinho (1988)
Coletânea de poesias de Ruddy Pinho, publicado pela Achiamé em 1988. Ruddy Pinho é considerada a autora do primeiro livro de autoria trans publicado no Brasil ("Eu Ruddy") e, possivelmente, a pessoa trans com mais obras publicadas no país até hoje.
Fonte
Bufólicas, Hilda Hilst (1992)
Em Bufólicas, Hilda Hilst reinventa poeticamente o obsceno. O livro. Incluindo poemas como O Reizinho Gay, A Rainha Careca, O Anão Triste e Filó, a Fadinha Lésbica, entre outras, Bufólicas é uma antologia poética sem concessões nem pudores. Cômicas, burlescas, farsescas, os poemas de Bufólicas, fogosamente acompanhados pelos desenhos de Jaguar, que não desperdiça a oportunidade de exercer os dons de um sátiro do lado de baixo do equador, são devidamente contextualizados pela autorizada voz do poeta mexicano Octavio Paz: Para a mente moderna, a poesia é energia, tempo e talento voltados a objetos supérfluos. No entanto, contrariando toda a lógica, a poesia circula e é lida... Seu valor e sua utilidade não podem ser medidos... E os poemas não podem ser economizados para formar uma poupança: eles têm que ser gastos.
Fonte
Guardar, Antonio Cicero (1996)
Conhecido do grande público sobretudo graças à parceria musical com a irma Marina Lima, o poeta Antonio Cicero nos oferece neste livro uma seleção de sua obra poética. Cicero alia, em sua poesia, um exame minucioso das angústias deste final de século a elementos clássicos, o que dá à obra um tom atemporal e, ao mesmo tempo, contemporâneo. Com grande apuro formal e muitas referências ao cenário carioca, Cicero disseca de forma meticulosa as paixões e desilusões do homem moderno. Antonio Cicero foi o vencedor, como autor estreante, no gênero poesia, do Prêmio Nestlé de Literatura 1997.
Fonte
In...confidências mineiras e outras histórias, Ruddy Pinho (1999)
Ruddy Pinho. Talvez você nem conheça esse nome, talvez nem saiba que ela foi das cabeleireiras mais prestigiadas do país, a oficial de primeiras damas, misses e celebridades da TV. Mas o que muito possivelmente você também indevidamente desconhecerá é que foi ela a primeira pessoa trans a publicar um livro no Brasil, Eu, Ruddy (1980), [...].
A produção é variadíssima. Inclui três obras de poesia, uma de crônicas, uma de contos e sobretudo as duas autobiografias, seu carro-chefe, uma focando da infância descaradamente viada, anos 1940 e 1950, em Minas Gerais, até os primeiros 10 anos da transição de gênero, já no Rio de Janeiro, década de noventa (Liberdade ainda que profana, 1998), a outra, já plenamente trans, explorando suas vivências a partir da virada do século (Nem tão bela nem tão louca, 2007).
Com exceção desses dois e de In...confidências mineiras e outras histórias (1999), livro de contos premiado pela Biblioteca Nacional, todos os outros vieram à luz antes de Ruddy passar a existir publicamente como mulher trans. E é interessante perceber que, embora ela assine o mesmo nome em todas, permitindo que se vislumbre uma continuidade - e que retroativamente se reivindiquem todas como obras de autoria não só sua, mas também trans -, as duas autobiografias e alguns momentos do livro de contos trazem uma Ruddy distinta daquela que publicou os demais nos anos 1980.
Fonte
Crime de honra, Cassandra Rios (2005)
'Crime de Honra' narra o drama psicológico de um homem que luta para manter o equilíbrio e a dignidade perante a sociedade e sua 'escolha' de vida não assumida. Victor é vítima e criminoso - tábua rasa de todos e de ninguém. Ele é um cidadão comum, cujo rosto e história se perdem no cotidiano entre milhares de outros rostos e histórias com os quais cruzamos diariamente nas ruas e nos metrôs de São Paulo, Rio, Nova York, Roterdã ou qualquer outra metrópole. Durante toda sua vida, Vi, como é chamado, foi sempre vitorioso, cúmplice e reticente. Por mais de meio século, ele vive uma vida de dissimulação e de aparências que o protege, mas também o separa do mundo, maquiando com uma máscara de masculinidade hiperbolizada sua identidade de 'lobisomem' que uiva/chama, na calada da noite, pelo amado, sem jamais ousar dizer seu nome.
Fonte
Saccola de feira, Glauco Mattoso (2014)
O que cabe em 14 linhas? O que pode ser contido numa estrutura de quatro estrofes? Que ideias podem ser traduzidas por versos que rimam, liricamente conduzindo o leitor pela sua narrativa? No caso dos sonetos de Glauco Mattoso, tudo, de memórias de sabores, odores, cores e alimentos ingeridos da infância à maturidade, sempre associados a dores e prazeres da vida a podolatria, sadomasoquismo e amor. Numa miscelânea de temas tão variados, nada mais justo que o livro ser nomeado Saccola de Feira (assim, com a grafia antiga de “saccola”, um dos traços do autor), onde tudo pode ser colocado sem distinção. Cego aos 40 anos devido ao glaucoma (que deu a Glauco seu irônico pseudônimo), o poeta é o narrador que conduz a viagem lírica pelos campos da cegueira, podolatria, memória, infância, sexo, violência, poética, política e corpo, sempre demonstrando uma percepção ímpar para todas as nuances que ele consegue retirar de sua saccola lírica.
Fonte
Amora, Natalia Borges Polesso (2015)
Ao se debruçar sobre as diferentes manifestações do amor entre mulheres, estas histórias revelam um delicado retrato do mundo sob a perspectiva de protagonistas repletas de nuances e complexidades. Juntas, elas formam um mosaico de violências, desejos, caos, ternura e liberdade — sentimentos que se materializam em situações tão distintas quanto uma neta lésbica que descobre coincidências inesperadas com a avó, o deslumbramento diante de uma vizinha rodeada de mistérios ou o ritual sonhador de um casal de idosas em uma manhã de domingo.
Obra vencedora do Prêmio Jabuti, traduzida e publicada em diversos países, Amora se tornou um clássico contemporâneo e ganha agora esta edição definitiva, com três novos contos e textos da autora e de convidadas refletindo sobre sua produção e importância.
Fonte
O amor dos homens avulsos, Victor Heringer (2016)
Neste romance breve, delicado e de leitura irresistível, o jovem Victor Heringer se coloca como um dos narradores mais raros e interessantes da nossa literatura.
Prêmio Jabuti 2024 na categoria Livro Brasileiro Publicado no Exterior (edição inglesa pela Peirene Press).
No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970. Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida. Essa história, aparentemente banal, é desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade.
Fonte
Você Tem a Vida Inteira, Lucas Rocha (2018)
As vidas de Ian, Victor e Henrique são entrecortadas pelo diagnóstico do HIV. Victor fica inseguro ao descobrir que Henrique, com quem está começando uma relação, é soropositivo e resolve fazer um teste, mesmo que os dois só tenham transado com camisinha. Logo depois de um resultado negativo, ele conhece Ian, um universitário como ele que acabou de receber uma notícia que pode mudar sua vida. No impulso de ajudar o garoto, Henrique entrelaça os destinos dos três.
Lucas Rocha narra, a partir das três perspectivas, os medos, as esperanças e o preconceito sofrido por quem vive com HIV, mas, principalmente, conta uma história que não é sobre culpa ou sobre estar doente, mas, sim, sobre como podemos formar nossas próprias famílias e sobre nunca esquecer que ainda temos a vida inteira.
Fonte
Controle, Natalia Borges Polesso (2019)
Conhecida por sua escrita ritmada, informal e envolvente, Natalia Borges Polesso apresenta, em Controle, uma narrativa impactante sobre relações homoafetivas entre mulheres, o poder do desafio e, acima de tudo, as escolhas que precisam ser feitas para que as pessoas se tornem quem elas querem ser. Mesclando citações de letras da banda New Order em seu texto, a autora escreve um romance geracional que permanecerá na mente do leitor.
A protagonista, Nanda, é epilética. Descobriu o transtorno ainda na infância, depois de uma queda de bicicleta, e sua vida nunca mais foi a mesma. Cercada de cuidado pelos pais, com medo de crescer e sair da casca protetora fornecida por sua condição, ela evita ao máximo o contato humano -- exceto pela amiga, Joana. Mas compartilhar o que acontece na vida de outra pessoa não é como viver junto dela. Nanda se pergunta até quando conseguirá manter a rotina morna que leva. Porém, seu dia a dia será posto em xeque quando ela finalmente se der conta de que não viveu.
Fonte
Redemoinho em Dia Quente, Jarid Arraes (2019)
Escritora conhecida por seus cordéis, Jarid Arraes estreia no gênero dos contos em Redemoinho em dia quente. Focando nas mulheres da região do Cariri, no Ceará, os contos de Jarid desafiam classificações e misturam realismo, fantasia, crítica social e uma capacidade ímpar de identificar e narrar o cotidiano público e privado das mulheres.
Uma senhora católica encontra uma sacola com pílulas suspeitas e decide experimentar um barato que a leva até o padre Cícero, uma lavadeira tenta entender os desejos da filha, uma mototáxi tenta começar um novo trabalho e enfrenta os desafios que seu gênero representa — Jarid Arraes narra a vida de mulheres com exatidão, potência e uma voz única na literatura brasileira contemporânea.
Fonte
A balada das cigarras, Alma Aiye Dun (2021)
Enquanto o meu amado me esquece
e eu o espero,
o procuro no rosto deles
e no corpo deles.
Quem entenderá uma travesti,
se não outra travesti?
Terei sossego? Nunca.
Uma vida longa, talvez.
Jamais me adaptarei ao isolamento outra vez.
Farei ecoar os meus versos
por cada canto que os meus pés pisarem,
para um dia ter o privilégio de sonhar
com uma morte serena
e natural.
Escrever
as memórias póstumas
dos meus amores póstumos.
Talvez adiantar um epitáfio:
“se o meu corpo não for respeitado
pelo presidente do meu país,
quero ao menos ser respeitada pelos meus pais”.
Um assombro, p. 146-148
Fonte
A palavra que resta, Stênio Gardel (2021)
Aos 71 anos, Raimundo decide aprender a ler e a escrever. Nascido e criado na roça, não foi à escola, pois cedo precisou ajudar o pai na lida diária. Mas há muito deixou a família e a vida no sertão para trás. Desse tempo, Raimundo guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, há mais de cinquenta anos, quando o amor escondido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar pistas, a não ser aquela carta que Raimundo não sabe ler — ao menos até agora.
Com uma narrativa sensível e magnética, o escritor cearense Stênio Gardel nos leva pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento de sua sexualidade, mas também das novas relações que estabeleceu depois de fugir de casa e cair na estrada, ressignificando seu destino mais de uma vez.
Fonte
O Beijo do Rio, Stefano Volp (2022)
Se dependesse dele, Daniel nunca mais pisaria em Ubiratã, a pequena e conservadora cidade no litoral do Rio de Janeiro onde cresceu. Dez anos haviam se passado desde que cortara contato com todas as pessoas de seu passado e mudara-se para a capital de São Paulo, preenchendo a rotina com sessões de terapia, corridas na avenida Paulista e o trabalho de jornalista investigativo numa conceituada revista. Mas eis que uma inesperada visita bate à sua porta com um pedido que ele é capaz de ignorar: investigar a morte do melhor amigo de infância, filho do homem mais poderoso da cidade, um grande líder religioso, respeitado por todos e presente nas memórias mais traumáticas de Daniel.
Agora, o jovem jornalista terá que enfrentar medos antigos e trazer de volta à superfície dores profundas que, conscientemente ou não, passou os últimos anos tentando ignorar
Fonte
Vou Sumir Quando a Vela Se Apagar, Diogo Bercito (2022)
Yacub passa os dias na companhia de Butrus no vilarejo da Síria onde vivem. Os dois são inseparáveis e se deixam encostar casualmente enquanto colhem folhas de uva ou fumam no gramado, mas uma agonia crescente toma conta de Yacub quando essa proximidade é ameaçada. Butrus recebera um convite do tio para emigrar para o Brasil e aproveitar as muitas oportunidades de um futuro próspero no país. A perspectiva do distanciamento não é forte o suficiente para que os dois verbalizem seus sentimentos, mas permite que finalmente se toquem. O ato consumado, no entanto, é seguido de uma tragédia. O que para os médicos é cólera, para Yacub é a ação do lendário jinni que habita o poço de uma casa abandonada, que estava aberto quando os jovens cederam aos seus desejos.
Esse é o ponto de virada da narrativa, que passa então a ter como cenário a vibrante São Paulo do início da década de 1930, uma cidade em transformação, ponto de atração de pessoas de diferentes partes do mundo. Em um ambiente marcado pela vontade de se estabelecer e pela infinidade de possíveis futuros, o passado cisma em se fazer presente para o imigrante, que começa a ter sonhos cada vez mais vívidos tendo o jinni como figura persecutória.
Fonte
Mata Doce, Luciany Aparecida (2023)
Maria Teresa vive com suas mães num casarão antigo, cheio de histórias de seus antepassados, de frente para um lajedo de pedra. Pelo peitoril, corre um roseiral, apenas com rosas brancas, e, no caminho diante da casa, passam personagens memoráveis: Mané da Gaita, músico e vendedor de doce, e sua cadela Chula; Lai, ex-prostituta e sua madrinha; os gêmeos Cícero e Antônio, filhos do dono da venda; Toni de Maximiliana, vaqueiro matador de gado, filho da sacerdotisa Mãe Maximiliana dos Santos; e Zezito, único filho homem de Luzia, e por quem Maria Teresa se apaixona e planeja se casar.
Ao experimentar o vestido de noiva num sábado de festa, um dia antes do casamento, uma tragédia envolvendo um fazendeiro violento e arbitrário atinge Maria Teresa e muda sua vida para sempre. Narrando o drama que se torna central, ela vai pouco a pouco desvelando ao leitor os sentimentos mais profundos dos que habitam Mata Doce. Surgem então, numa delicada costura narrativa, antigas rixas familiares, segredos do passado, sentimentos clandestinos e muitos mistérios.
Fonte
Morda meu coração na esquina – poesia reunida, Roberto Piva (2023)
Autor de versos radicais e transgressores, Roberto Piva estreou na literatura em 1963, com Paranoia, numa edição acompanhada por fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee. Dali em diante, até 2010 -- ano de sua morte --, o poeta ganharia lugar único na cena literária. Avessa às convenções sociais, à moral, aos bons costumes, ao bom-mocismo e ao modo de vida burguês, sua poesia chocou os leitores de então e segue como referência ímpar para as gerações seguintes.
Amor e erotismo aparecem como tema central na obra do autor de Piazzas. O pano de fundo é uma São Paulo noturna, caótica, feita de buzinas, esbarrões, flertes e infinitas possibilidades. Nos versos de Piva, que carregam toques de surrealismo e de misticismo, estão presentes o desejo sexual e a violência física, o delírio e a razão, a sensação coletiva das metrópoles e sua irremediável solidão.
Fonte
Ninguém quis ver, Bruna Mitrano (2023)
"minha avó roubava leite/ pra dar aos filhos/ porque seus peitos empedraram/ porque a sequidão é a sina/ das mulheres da família", escreve a poeta Bruna Mitrano em seu segundo livro -- o primeiro pela Companhia das Letras. Com sensibilidade brutal e contundente, Ninguém quis ver aprofunda reflexões sobre a vida à margem, condição relacionada à desigualdade de gênero, mas também ao contexto geográfico e social.
Nascida na periferia do Rio de Janeiro, Bruna Mitrano faz parte de uma nova geração de autoras que têm reinventado a linguagem poética. Para a professora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda, que assina a orelha do volume, a poeta "consagra-se como uma das grandes revelações da poesia contemporânea e da poesia de mulheres, que veio com força para desafiar uma realidade que 'ninguém quer ver' e, assim, construir outro futuro".
Fonte
Quarto Aberto, Tobias Carvalho (2023)
Narrado por Artur, um jovem gay introvertido que às noites vira uma drag queen exuberante, Quarto aberto conta a história de uma reviravolta pessoal inesperada. Quando Artur se reconecta com Eric, um garoto com quem se envolvera anos antes, este agora está em um relacionamento aberto com Antônio, jovem rico de beleza padrão com quem Artur começa a se relacionar. A vida estável do narrador passa a expor trincas e rachaduras quando Caíque, seu namorado, também entra na equação, transformando o triângulo amoroso em algo ainda mais complexo.
Tobias Carvalho retoma com maturidade suas investigações literárias sobre a homossexualidade masculina em tempos de aplicativos de sexo, tema de sua obra de estreia. Dotado de uma prosa seca que remete ao mesmo tempo ao estilo pop de Sally Rooney e aos diálogos elípticos de Raymond Carver, Quarto aberto mostra, sem moralismo, a complexidade dos relacionamentos de uma geração de vinte e poucos anos para a qual todas as opções se revelam disponíveis e sedutoras.
Fonte
Veado Assassino, Santiago Nazarian (2023)
Um presidente de extrema-direita é morto por um adolescente não binário. Por meio de uma longa entrevista, conhecemos a história do jovem e as decisões que o levaram a cometer o ato. Seria ele uma vítima, um terrorista ou um violento incel — um celibatário involuntário?
Numa narrativa estruturada apenas em diálogos, Santiago Nazarian apresenta o retrato de uma geração tão engajada quanto individualista, que sabe o que precisa combater, mas não o que defender. Questões raciais, sexuais e de gênero são colocadas numa balança sempre desequilibrada, e a visão parcial de um personagem pode revelar mais do que suas palavras. Com o cinismo e o sarcasmo típicos de Nazarian, Veado assassino é uma louca novela especulativa, divertida e reflexiva na mesma medida.
Fonte
Veludo Rouco, Bruna Beber (2023)
"Pai celestiá/ ninguém sabe quem varre nossas porta/ Se vento ventoso, vento de arrasá/ ou vento de ninar cantiga/ Por isso santa Rita nóis canta/ advindo disso santa Rita nóis reza". Com uma prece, pedindo licença, entramos no novo livro da poeta Bruna Beber.
Veludo rouco é dividido em quatro partes -- "Amor e morte", "Natureza e fantasia", "Ofício e graça", "História e geografia" --, cada qual uma vereda por onde se aventurar em torno de diferentes tempos, vozes e lugares. Circulando por ruas de São Paulo, Rio de Janeiro ou do sul da África, invocando personagens vivos e mortos, a autora constrói a cada verso um lugar próprio, nos convidando a visitá-lo e conhecer seus habitantes.
Fonte
Sodomita, Alexandre Vidal Porto (2023)
O quarto romance de Alexandre Vidal Porto, conhecido pelo seu estilo límpido para tratar de cenas contemporâneas, retorna vários séculos para narrar a saga de Delgado, um violeiro de Évora que chegou a Salvador no ano de 1669, degredado pelo crime de sodomia — um código para homossexualidade.
É em território brasileiro, com seu passado apagado, que Delgado se reinventa como comerciante, assume um casamento de fachada e se joga nos deleites carnais com os belos rapazes que cruzam seu caminho.
Misturando um falso português arcaico e a linguagem oral de hoje, Sodomita desbrava temas atuais — da laicidade do Estado aos resquícios da escravidão — em uma roupagem inusitada e divertida.
Neca, Amara Moira (2024)
Neste livro inteiramente escrito na língua das bichas, uma travesti reencontra um antigo amor, anos mais jovem, que está começando a trabalhar nas ruas. Enquanto entrelaça conselhos e lembranças, ela rememora suas aventuras como prostituta no Brasil e na Europa; fala sobre o que descobriu e conheceu sendo puta; recorda o que desejava ser e sonha com o que poderia ter sido.
Na época em que namoravam, a jovem debutante estudava Letras, o que motiva a protagonista a falar de literatura como parte de sua história juntas. Numa prosa vulcânica, passa em revista obras e autores centrais do cânone, aplicando também sua memória e sua inventividade para ver a literatura com olhos de quem aprendeu tudo na rua, como se aprende o bajubá.
Publicado pela primeira vez na antologia A resistência dos vaga-lumes (2019), o icônico monólogo é agora reeditado em versão expandida. Romance de estreia de Amara Moira, Neca é hilário, escatológico e único em sua sofisticação literária -- uma obra valiosa na forma e no conteúdo, atrevida o bastante para abarcar com eloquência a profusão da realidade.
Fonte
Sangue Neon, Marcelo Henrique Silva (2024)
Figuras da noite, salas de aeroporto, quartos de hospital, casas do subúrbio. A chegada da epidemia de AIDS no Brasil transformou tudo. Histórias e vidas que jamais se cruzariam enovelam-se em tramas cintilantes como um farol em meio às trevas.
Baseado em personagens e eventos reais, Sangue neon se passa entre os anos 70 e 90, período de profundas mudanças na sociedade, política e saúde do país. Tempo em que surgem urgentes novas vozes em favor da busca de dignidade, liberdade e o direito à vida. Figuras invisíveis que ajudaram a transformar a saúde pública brasileira. Pessoas como uma travesti nordestina que monta o primeiro centro de acolhimento a pacientes com HIV do país, um grupo de comissários de bordo que inicia um esquema de contrabando de medicamentos através dos aeroportos, e médicos com o sonho impossível de criar um novo sistema de saúde, o maior que o mundo já havia visto.
Fonte